Parece que a reputação do carnívoro mais temido da Era do Gelo sofreu um abalo definitivo. Todo mundo morre de medo dos enormes caninos do dente-de-sabre Smilodon fatalis, mas uma equipe de pesquisadores australianos reconstruiu sua mordida e mostrou que, na verdade, ela era relativamente fraca - com apenas um terço da força bucal de um leão moderno de tamanho comparável, para ser mais exato.
Isso sugere que, na verdade, os imensos dentes do felino, que rondava a América do Norte até uns 10 mil anos atrás e tinha parentes no Brasil (o S. populator, muito comum em Minas Gerais e na Bahia), de pouco adiantavam na hora de capturar a presa. Segundo a reconstrução feita pelos cientistas na última edição da revista científica americana "PNAS", as armas afiadas na bocarra da criatura só seriam úteis depois que suas vítimas já estivessem dominadas, prestes a receber o golpe de misericórdia.
As conclusões vêm de um trabalho coordenado por Colin R. McHenry, da Universidade de Newcastle, na Austrália. O que os pesquisadores fizeram foi pegar os fósseis do Smilodon fatalis e fazer uma reconstrução virtual deles no computador. Fizeram o mesmo com o crânio dos leões modernos - ambas as espécies têm tamanho comparável, embora os dentes-de-sabre não pertençam à mesma linhagem dos felinos modernos e, por isso, seja errado chamá-los de "tigres".
A reconstrução virtual permitiu estimar como os músculos cranianos dos bichos funcionavam, o que tem uma relação direta com a força de sua mordida. E, conforme indicavam estudos anteriores, os pesquisadores descobriram que a estrutura do crânio dos dentes-de-sabre simplesmente não permitia uma mordida muito forte. Além disso, seus ossos eram relativamente frágeis, incapazes de resistir às tensões geradas por uma presa grande - como os cavalos, bisões e mamutes da Era do Gelo - ao se debater. O mesmo não acontece com os leões, cuja mordida é poderosa e reforçada.
Para McHenry e companhia, a explicação desse dado aparentemente paradoxal é simples. Segundo eles, os dentes-de-sabre teriam uma técnica de abate diferente da dos leões modernos. Enquanto os bichos africanos de hoje mordem a garganta da presa por longos períodos, até asfixiá-la, os dentes-de-sabre precisavam primeiro derrubar e imobilizar suas vítimas - provavelmente com uma patada poderosa.
Só com o almoço já no chão é que os dentões do bicho seriam úteis. Aí ele daria um golpe de misericórdia fazendo um movimento de foice, com a ajuda dos músculos do pescoço, finalmente matando a presa. Na verdade, especulam os australianos, o método de abate dos dentes-de-sabre poderia ser até mais rápido que o dos leões, no geral. Fonte: Globo Online