Enquanto espécies como sardinha e lagosta são cada vez mais disputadas pelos pescadores e têm seus estoques diminuídos no mundo, no Brasil um peixe bastante abundante, mas ainda pouco conhecido, poderia ser um sopro de vitalidade no mercado pesqueiro.
É a anchoíta (Engraulis anchoita), espécie muito vista em grande parte da costa brasileira e que rende, há bastante tempo, bons lucros para os vizinhos Uruguai e Argentina.
Além da potencialidade econômica, fatores naturais poderiam levar a anchoíta a ser usada em programas de combate à fome no Brasil.Tudo isso foi analisado pela Fundação Universidade Federal do Rio Grande (Furg). Entre 1996 e 2006, profissionais mapearam os recursos pesqueiros da costa brasileira, em especial na faixa do Chuí ao Ceará. A expectativa era identificar os novos recursos disponíveis para a pesca nacional. A anchoíta foi uma das poucas espécies consideradas novas - por serem pouco ou nada exploradas no país.
A partir daí, montou-se um projeto encomendado pela Secretaria Especial de Aqüicultura e Pesca (Seap) da Presidência da República, com fundos do Ministério da Ciência e Tecnologia e executado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). O objetivo era analisar a abundância e a potencial de pesca sustentável da anchoíta na costa brasileira.
Setor pesqueiro precisa adaptar equipamentos
Os dados coletados surpreenderam os técnicos. Enquanto hoje são capturadas em torno de 450 mil toneladas de pescado por ano no Brasil - capacidade que já chegou a 750 mil toneladas em anos anteriores - , a pesquisa mostrou que existem entre 600 mil e 1 milhão de toneladas de anchoíta na costa brasileira. Desse total, seria possível a extração sustentável de 100 mil toneladas por ano, ou seja sem comprometer o ecossistema, já que a espécie serve também de alimento para aves, peixes e mamíferos aquáticos.
A bordo do Navio Oceanográfico Atlântico Sul, a equipe de pesquisadores trouxe para terra cinco toneladas do pescado, depois levado para ser transformado em farinha (em uma indústria de pescado local) e para elaboração de produtos alimentícios, sob a responsabilidade de profissionais do curso de Engenharia de Alimentos da universidade.
A espécie, no entanto, não atrai o interesse do setor pesqueiro, principalmente por seu tamanho reduzido. As embarcações e seus equipamentos, assim como o maquinário existente nas indústrias, estão preparados para processar apenas peixes maiores, como o linguado e a corvina.
– Atualmente, não existe essa tradição no parque industrial brasileiro. Teria de haver uma adaptação tanto das instalações, quanto ao novo mercado comprador dessa espécie – avalia Torquato Pontes, proprietário de uma indústria em Rio Grande.
A idéia do governo federal é sensibilizar o setor quanto ao investimento nesse novo nicho. Segundo Eric Arthur Routledge, coordenador-geral de incentivo à pesquisa e geração de novas tecnologias da Seap, está em estudo a estruturação de linhas de crédito para construção e modernização das embarcações brasileiras.
Por: Rodrigo Santos
Fonte: Zero Hora