O episódio de hoje começa com um símbolo de resistência: o glaucis dohrnii ou “balança-rabo-canela” - um dos mais raros e ameaçados beija-flores do Brasil. Desde 1992 não se tinha nenhum registro de aparição dessa ave. Muitos já a consideravam extinto, principalmente porque o seu habitat é um dos biomas mais ameaçados do mundo: a Mata Atlântica.
A redescoberta desse beija-flor se deveu graças ao esforço de um grupo de pesquisadores que trabalha na Reserva Ambiental de Alcoprado, no estado da Bahia.
“Há cerca de 70 anos a espécie já estava vulnerável, já se considerava como muito rara, extremamente rara, e não era uma situação só de ambiente, já que existia uma mata contínua”, explica o pesquisador da ONG Funatura, Paulo Antas.
Apesar de pequenos, eles são muito valentes e defendem seu território a qualquer custo, inclusive enfrentando aves bem maiores. Eles também adoram água.
“Eles gostam muito de tomar banho. Tanto em poças de água no chão quanto em árvores, nas bromélias e em locais onde não têm essa disponibilidade, naquele orvalho da manhã, nas folhas, eles se lançam contra as folhas e tomam banho com aquela umidadezinha que está na folha. Uma ave de duas, quatro, cinco gramas isso ai qualquer gotinha é muita coisa”, aponta o pesquisador Paulo Antas.
Mas o beija-flor dá sorte ou azar?
“O beija-flor, se entra pela janela, trás boas noticias. Mas se ele sai pela porta indica perda de alguma coisa, muitas vezes de vida. Quando ele entra se diz: ‘Boas novas meu beija-flor, se for boas traga, se for ruins, as leve’”, ensina a pesquisadora da cultura popular Maria Oliveira.
A cultura popular pode até tratar o beija-flor com certa desconfiança, porém a moda já foi bem mais dura com esses bichos.
“O período mais grave foi no final do século 19, em que o Brasil exportou muitas peles com as penas de beija-flor para a Europa para fazer adereço de chapéu em Paris”, aponta Paulo Antas.
A alimentação dos beija-flores é um caso a parte. Algumas espécies chegam a visitar cerca de 2 mil flores num único dia em busca de néctar. Se nós fossemos um beija-flor, para agüentar tamanha maratona, teríamos que comer cerca de cinco quilos de açúcar todos os dias.
“O beija-flor é um verdadeiro atleta, o deslocamento que ele realiza entre uma flor e outra consome grande energia. Então esse açúcar que ele consome é gasto nesse deslocamento”, explica o pesquisador Museu Mello Leitão, Luciano Vieira.
Se você costuma alimentar beija-flores, preste atenção na dica do especialista Luciano Vieira, pois aquelas garrafinhas com água e açúcar, ou mesmo mel, podem ser fatal para eles.
“O mel não é indicado porque fermenta muito mais fácil do que o açúcar. Em geral essa fermentação proporciona a procriação de um fungo que pode vir a acarretar a morte do beija-flor. Esse fungo costuma atacar na língua do beija-flor, a língua incha e o beija-flor acaba morrendo por asfixia”, alerta Luciano Vieira.
Os beija-flores são considerados excelentes arquitetos. Seus ninhos estão entre os mais bonitos e elaborados da natureza.
“Os ninhos são classificados em três tipos, eles podem ser pendentes de folhas de palmeiras, eles podem ser colocados em forquilhas, ou eles podem pender de galhos. Alguns ninhos podem ser feitos com paina de bromélia e amarrado com teia de aranha. Isso confere a ele uma elasticidade que, à medida que os filhotes vão crescendo no seu interior, o ninho vai se expandindo, ele vai crescendo junto com os filhotes. Isso garante um conforto aos filhotes até que estes saiam do ninho”, mostra Luciano Vieira.
Quem pensa que ninho de beija-flor só se encontra no meio do mato está enganado. Quando uma mamãe beija-flor tem que cuidar dos seus filhotes o local não importa. O intenso movimento das ruas do Leblon, na cidade do Rio de Janeiro, não impede a natureza de seguir seu curso. Pena que muita gente nem presta atenção a mais esse milagre da natureza, que insiste em vencer, apesar das adversidades.
Fonte: Portal do programa Fantástico