
Os gorilas N'tua e N'goro são os primeiros da espécie a serem criados em cativeiro na Espanha como parte de uma família. A tarefa não é fácil, já que os padrões de conduta naturais das gorilas foram tão diluídos que é necessário descobrir modos de lembrar ou ensinar a eles como criar filhos. A dupla representa o sucesso de anos de investimento do zoológico de Barcelona para manter uma família de gorilas unida.
Com apenas um ano, N'tua e N'Goro são os últimos netos do famoso gorila Copito de Nieve. Suas mães são, respectivamente, Virunga e Machinda, e seu pai é o colossal Xebo, espécime de mais de 250 kg. Depois de anos de programas de reprodução e reintrodução dos gorilas, o departamento de primatas do zoológico de Barcelona conseguiu criar, com esses bebês de gorila, aquilo que tradicionalmente é considerado como uma família. Ou seja, as mães de ambos foram capazes de superar suas inexperiências e conseguiram manter vivas as suas crias, mantendo-as em sua companhia durante o primeiro ano de amamentação.
Para os leigos no assunto, a façanha pode parecer insignificante, mas ela abre uma série de possibilidades.
"Até agora, tínhamos um grave problema com as mães, porque elas não sabiam como atender às suas crias. Não haviam aprendido, não tinham padrões de conduta, não sabiam como agir. Já havíamos encontrado casos de fêmeas que tratavam suas crias como intrusos, não sabiam lhes dar de mamar e causavam risco aos filhotes, o que nos forçava a separá-las dos bebês", explica Maria Teresa Abelló, diretora de conservação de primatas no zoológico.
Com Virunga e Machinda, o processo não fácil mas o resultado foi um sucesso. Vendo-as agora em companhia de suas crias, mimadas até mesmo pelo macho do grupo - Xebo se esforça por minimizar seu volume corporal quando se aproxima das crias, para evitar assustá-las -, ninguém diria que durante meses a vida dos pequenos gorilas esteve por um fio.
"N'tua nasceu em 5 de julho do ano passado e, ainda que parecesse saudável, constatamos sinais de fraqueza no quinto dia. Ela teve de ser afastada da mãe por algum tempo, e alimentada com mamadeira. A mãe, Virunga, tinha problemas de lactação, se bem fosse a única fêmea do zoológico que exibisse padrões de convivência em família", diz Abelló.
Depois de meses de educação, Virunda conseguiu continuar criando seu bebê gorila, o que ajudou Machinda a cuidar do seu, N'goro, nascido três meses mais tarde.
"Ela sem dúvida é menos cuidadosa do que Virunga com a cria, mas pouco a pouco aprendeu, o que nos leva a afirmar a importância de padrões de comportamento para essa espécie", diz a especialista.
Xebo, Virunga e Machinda, bem como os bebês N'goro e N'tua, formam uma das poucas famílias de gorilas que se pode ver em zoológicos. O atrativo concreto dessa família é que ela representa um precedente para Barcelona, porque as mães podem ensinar padrões de comportamento a futuras gerações, as quais, com sorte, talvez não dependam de mamadeiras para criar seus filhotes.
Esse tipo de criação, ainda que válido em termos de sobrevivência, acarretou graves dificuldades para a espécie até o momento: problemas de atitude social e adaptação, de reprodução e acasalamento. Depois de afastadas das mães, as crias passavam até quatro anos sendo alimentadas com mamadeiras, e os pequenos gorilas tinham de aprender a ser gorilas por meio de brincadeiras ensinadas por seres humanos.
Fonte: JB Online
Foto: ilustrativa (Zoo de Munique)